Gonçalo Pereira

Embaixadores da Paisagem

Em junho de 2011, Santana tornou-se a primeira reserva da biosfera da Madeira, entrando num clube restrito de 580 reservas espalhadas por 114 países. Portugal já tinha cinco reservas classificadas: uma no continente, três nos Açores e uma transfronteiriça (o Gerês), partilhada com Espanha. Nesse verão do ano passado, Santana e Berlengas engros- saram o compromisso português de promover a compatibilidade do desenvolvimento humano com as necessidades e fragilidades ambientais.


Gonçalo Pereira

Creio, porém, que a Reserva da Biosfera de Santana produziu um novo fôlego na relação portuguesa com este programa MAB (Man and Biosphere) da UNESCO, que dis-tingue regiões nas quais os valores ecológicos são particularmente compatíveis com os mecanismos de desenvolvimento económico e social. O entusiasmo e o empenho dos agentes sociais que conduziram a candidatura de Santana tiveram o condão de reativar o interesse nacional por este precioso instrumento de promoção do território que é o programa MAB. Outras candidaturas já na calha seguem o trilho aberto por Santana.

Uma Reserva da Biosfera será tão bem sucedida quanto as populações que a integram o quiserem. Parece um aforismo evidente, mas implica um verdadeiro compromisso dos munícipes de Santana, de todos os madeirenses e, em última instância, de todos os visitantes para que a reserva não se limite a um compromisso no papel. No debate em curso sobre a relação das populações com as áreas protegidas onde se integram, têm sido amplamente referidas a necessidade de transparência em todos os processos de decisão, de participação popular em todos os atos de gestão e de valorização e promoção dos fatores de crescimento económico associados ao ecoturismo e outras atividades sustentáveis. Por outras palavras, não há áreas protegidas sem pessoas, nem são sustentáveis as áreas protegidas delineadas contra os interesses das populações. Para que o debate seja justo, é missão dos gestores de qualquer área protegida prestar contas do serviço biológico, ambiental e também económico que a área protegida presta a cada região.

Foi para esse debate que a Reserva da Biosfera de Santana contribuiu. O processo de can¬didatura foi transparente e participado; os benefícios e inconvenientes da classificação foram discutidos. E, ao contrário de tantas outras áreas protegidas, existe um compromisso forte dos gestores da Reserva para alicerçar novas atividades económicas associadas ao fluxo de interesse que a classificação inevitavelmente gerou. Desse ponto de vista, o recente Congresso da Costa da Laurissilva foi revelador da aposta dos municípios do Norte da Madeira na criação de mecan¬ismos de solidariedade, que permitam fixar nesta zona da ilha uma percentagem dos rendimen¬tos auferidos pelo turismo de natureza.

Estes são os benefícios, mas, como em todas as moedas, há um reverso. Os munícipes de Santana carregam desde junho de 2011 uma responsabilidade pesada sobre os ombros. São eles agora os embaixadores da paisagem. Desde as crianças em idade escolar aos agentes económi¬cos, desde o caminhante que se entranha nas inesquecíveis levadas ao promotor de atividades de ecoturismo, todos têm a responsabilidade de salvaguardar os valores ecológicos que, em última instância, justificaram a decisão da UNESCO.

O equilíbrio dos endemismos biológicos com as atividades humanas é um esforço hercúleo, que exige constante vigilância, educação ambiental e boas práticas. Exige civismo e responsabili¬dade. E é uma tarefa que nunca está verdadeiramente concluída. Mãos à obra, então!

Gonçalo Pereira - Director, National Geographic – Portugal